Furia Em Duas Rodas -

Aquele era seu território. Ele conhecia cada remendo no asfalto, cada valeta traiçoeira sob as pontes. Pilotava há oito anos, desde os dezoito, e a cidade se tornara uma extensão de seus nervos. Mas naquela noite, a fúria não veio do trânsito.

A fúria evaporou num segundo, deixando apenas o vazio frio de quem quase transformou uma noite comum em estatística. Ele jogou o corpo para a direita com um reflexo que não era coragem, mas sobrevivência pura. A moto raspou o asfalto, o pedal de freio arrancou faíscas. O ônibus passou zunindo, o vento sacudindo o capacete. O Fiesta finalmente entrou à direita e sumiu na chuva. furia em duas rodas

Sentado no concreto molhado, com os carros cortando a noite ao lado, ele tirou o capacete. A garoa misturou-se às lágrimas. Não havia ninguém ferido. Não havia batida. Apenas o eco do que poderia ter sido. Aquele era seu território

Um táxi fechou a passagem na altura do Carrefour. Sem pensar, Bruno enfiou a moto no corredor entre o táxi e uma carreta. Menos de dois centímetros de cada lado. A fúria sussurrou: “Você não é ninguém. Prova que é alguém.” Ele provou. Mas naquela noite, a fúria não veio do trânsito

Na primeira ultrapassagem, cortou um Gol quadrado pela direita, raspando o retrovisor. O motorista buzinou. Bruno ignorou. A velocidade subiu para oitenta, noventa, cem – dentro da cidade, um absurdo. O vento não refrescava; alimentava. A cada giro do acelerador, ele deixava para trás um pedaço da humilhação.

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